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Presidente da Aliança LGBTI+, Toni Reis fala sobre cenário político e de sua candidatura ao Senado


O professor e ativista Toni Reis. Foto: Agência Senado

9 dez. 2021 | Paulo Malvezzi


Após quatro décadas de militância no movimento LGBTI+ do Brasil, o professor e ativista Toni Reis, 57 anos, presidente da Aliança Nacional LGBTI+, deve se candidatar a senador pelo Paraná nas eleições de 2022. “As conversas estão adiantadas, mas é um processo muito longo”, diz ele, que, embora filiado ao PCdoB, está em tratativas com outros partidos, os quais ainda não quer revelar. “Fui procurado por vários.”


Em entrevista à Diadorim, feita por telefone, o ativista explica que um dos motivos que o levaram a decidir pela vida política institucional é a necessidade “de gente que se disponha a contribuir para que o nosso país volte aos trilhos da democracia”. Ele também pondera sobre a escolha do novo ministro do STF (Superior Tribunal Federal) André Mendonça, evangélico e aliado do presidente Jair Bolsonaro (PL).


A Aliança Nacional LGBTI+ é uma das integrantes do Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT, órgão colegiados ligado ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Em 2018, quando a pastora Damares Alves assumiu a pasta no governo Bolsonaro, o Toni Reis disse que com ela à frente da pasta haveria “uma possibilidade de diálogo”. Agora à reportagem, três anos depois, o ativista pontua suas diferenças e aproximações com a ministra.



AGÊNCIA DIADORIM – 2022 será um ano desafiador para o Brasil, com uma eleição polarizada e diversas crises em curso. O senhor enxerga haver riscos de avanço das pautas conservadoras e anti-LGBTI+ no próximo ano?

TONI REIS – Nós, a comunidade LGBTI+, conquistamos todos os nossos direitos na Suprema Corte. E nós vamos manter isto. Nós saímos do armário, fomos às ruas, fomos às instituições e conseguimos. E nós vamos preservá-los, mas vamos ter que dialogar com todos os setores da sociedade, inclusive religiosos. Nesse sentido, é importante a nossa organização, profissionalizar a incidência política, a litigância estratégica, para que a gente não volte atrás. Risco sempre há. Mas creio que com uma boa organização, com muito diálogo, a gente desfaz essas desinformações e elimina esse discurso de ódio. E que nossa comunidade possa manter as conquistas.


DIADORIM – O STF foi central para a conquista de direitos pela população LGBTI+ nos últimos anos. Qual sua avaliação da chegada de um ministro “terrivelmente evangélico" na Corte, o segundo indicado pelo atual presidente?

REIS – Primeiro ele vai ter que se basear na Constituição Federal. E nós vamos estar com todos os olhos voltados para cada linha que ele escrever. Ele se comprometeu, na sabatina [no Senado], que ele vai se basear na Constituição Federal, e lá [no STF] tem um grupo de mais dez pessoas que tem se posicionado favorável às pautas da Constituição Federal. E o que nós queremos é igualdade de direitos, sem discriminação e sem privilégios. Então, há uma pressão interna dos próprios ministros e ministras para a manutenção dos direitos. Ele será mais um. Ele pode pedir vistas, mas vai ter momentos que ele vai ter que negociar com os outros ministros, senão todas as pautas que ele quiser defender não vão passar. O Supremo Tribunal Federal também é um tribunal que tem conversas e entendimentos, e Mendonça é uma pessoa com conhecimento jurídico. Ele pode ser religioso, não tem problema, absolutamente nenhum. Nós temos muitos ministros católicos, judeus, mas que não aplicaram a Bíblia ou a Torá lá no Supremo. Isso faz parte da democracia. Nós precisamos que o ministro seja “terrivelmente” constitucional. É isso que nós esperamos e é isso que nós vamos cobrar. Nós teremos uma equipe de advogados e advogadas que vão analisar cada linha das suas decisões.


DIADORIM – A Aliança pretende marcar uma reunião com o novo ministro?

REIS – Assim que ele tomar posse, vamos marcar uma reunião para discutir sobre os nossos direitos. Vamos mostrar que nós não queremos destruir a família de ninguém, nós queremos construir as nossas famílias, da nossa forma, do nosso jeito, e que nós não queremos sexualizar as crianças. Queremos políticas públicas para a comunidade LGBTI+. E, nesse sentido, como ministro da AGU ele não foi tão radical. Inclusive, pessoalmente, eu estava com medo que fosse um outro ministro “terrivelmente católico”, que fosse daqueles conservadores que passassem a fazer seus pareceres baseados em livros sagrados, mas Mendonça tem notório saber jurídico.


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DIADORIM – O senhor já decidiu se candidatar ao Senado em 2022? Com quais partidos o senhor tem conversado sobre o tema?

REIS – Fui procurado por vários partidos para filiação, mas estou filiado hoje no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), do qual eu gosto, concordo com a ideologia de que nós temos que lutar contra as desigualdades. E na política é natural que a gente dialogue com vários partidos. Fui convidado por outros que eu não posso aqui nomear. As conversas estão adiantadas, mas é um processo muito longo.


São muitas candidaturas. Coincidentemente, eu sou o 24º pré-candidato ao Senado no estado do Paraná. Mas eu não tenho essa pretensão personalista de ser eleito; eu quero é discutir e mostrar que nós existimos, colocar nossa pauta em discussão. Nas eleições de 2022, a Aliança terá um programa chamado Voto com Orgulho, uma plataforma para todas as pessoas presidenciáveis, todos os governadores, todos os deputados estaduais e federais, todos os senadores. Nós vamos atuar nas eleições com propostas concretas, estamos incentivando todas as pessoas a procurarem os partidos e se filiarem. Precisamos de gente que se disponha a contribuir para que o nosso país volte aos trilhos da democracia.


DIADORIM – E quais as suas perspectivas para a possível candidatura?

REIS – Eu acho que nós temos que estar em todos os partidos, respeitando a individualidade de cada um. Eu, por exemplo, estou conversando com um partido de centro-esquerda. E tem um partido de centro que está com uma proposta irresistível. Então eu estou conversando, mas tenho outros sonhos para minha vida privada. Criei meus filhos, estou com 57 anos, terminando meu segundo pós-doutorado e estou com muitas ideias de livros, de viajar com meu esposo. São 38 anos de luta pelos direitos humanos LGBTI+, e estou querendo me aposentar e viver uma vida mais calminha. A política tira muita energia, mas eu me dispus, até porque várias pessoas vieram conversar comigo e eu me animei. Conversei com a minha família, eles gostaram da ideia, mas ainda não está definido cem por cento que serei candidato. Se for para ser, serei.


DIADORIM – As eleições ainda estão longe, mas as pesquisas apontam para a possibilidade de volta do PT ao Governo Federal. Que avaliação o senhor faz dos governos de Lula e Dilma, com relação à população LGBTI+?

REIS – Nesses 38 anos de ativismo e militância, os dois governos de Lula foram os melhores para a comunidade LGBTI+. Nós tivemos as conferências LGBT e nós tivemos avanços. Lula é muito corajoso em defender as pessoas que mais precisam. Então eu tenho uma avaliação muito positiva dele enquanto presidente.


Com relação ao governo da presidenta Dilma, nós tivemos uma sequência [das políticas de Lula], mas ela tinha muito cuidado principalmente com setores mais conservadores. Então, por isso, nós tivemos dois fatos: a questão daquele material maravilhoso, que até hoje não foi publicado, o material da Escola sem Homofobia – pejorativamente apelidado pelo atual presidente de “Kit Gay” – que a presidenta pediu pra vetar e não teve acesso ao material original, e tivemos dificuldades em relação ao nome social das pessoas trans, no governo dela. Mas Dilma é uma pessoa com quem dá pra dialogar, é uma pessoa que está no campo democrático. A política é feita de forças, e nós precisamos conversar com todas as forças.


Hoje nós temos 513 deputados, 81 senadores. Nós da Aliança Nacional conversamos com absolutamente todos, e a gente tem que dialogar, nós temos que buscar entendimento, e o governo Lula tinha muito diálogo. Então nós tínhamos um conselho [Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT] que era representativo. Hoje nós estamos com o conselho que não é o ideal, que restringiu a participação de oito representações para três, mas temos que continuar a fazer essa luta. Por isso nós vamos conversar com a maioria dos presidenciáveis, com os comitês, com uma rede de organizações. Já estamos conversando com as assessorias, com as pré-campanhas, para pra fazer um trabalho.


DIADORIM – Em 2018, quando a pastora e advogada Damares Alves assumiu o ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, o senhor disse que com ela à frente da pasta haveria “uma possibilidade de diálogo” e que a ministra “não é uma pessoa que falou que não existimos”. Qual avaliação que o senhor faz da gestão de Damares, nestes três anos?

REIS – Na transição de governo, Damares me chamou [para conversar], e eu conversei com várias pessoas, várias instituições, fizemos documentos e tivemos uma reunião com ela. Pedimos uma política de Estado. Com Damares temos divergências de fundo, por toda a situação, mas nós mantemos um diálogo republicano. A Aliança participa do conselho, e houve uma certa continuidade de políticas, que não são ideais, mas que podem ser melhoradas, e muito.


Nós precisamos não só ficar centrados no Ministério [da Mulher, Família e Direitos Humanos]. Nós temos que estar lá no Ministério da Educação, que infelizmente não há diálogo; no Ministério da Saúde, onde temos um diálogo muito setorizado para a questão do HIV/Aids; no Ministério da Cultura, que infelizmente não há absolutamente nenhum diálogo. Então, nós temos que avaliar a floresta e não somente as árvores.


Com relação a Damares, dá para conversar e dialogar. Há retrocessos, e a gente sabe disso. Então a gente tem feito uma resistência aqui e acolá. Não é, como eu disse, cem por cento – de zero a dez, eu daria uma nota cinco, porque poderia ter sido melhor. E a gente tem que continuar dialogando por qual governo ganhar as eleições em 2022, e, em 2023, nós vamos continuar o nosso trabalho de controle social, de litigância estratégica, de accountability, acompanhamento e monitoramento, tanto dentro do Brasil como nas organizações da OEA e da ONU. E isso a gente tem feito.


DIADORIM – Damares chegou a dizer que vocês dois são amigos há “mais de uma década”, e que às vezes “pensamos diferente, às vezes estamos em lados opostos e muitas, muitas vezes estamos do mesmo lado”. Quais os diálogos que vocês mantiveram com relação às demandas LGBTI+, nestes três anos? Houve mais embate ou mais diálogo? Houve conquistas?

REIS – Bem, primeiro, eu sou cristão, católico, apostólico, romano. Ela é cristã, evangélica. Eu defendo que as pessoas gays podem casar. Ela já não defende. Então aqui nós já nos separamos. Eu defendo que tem que ser criminalizado qualquer discurso de ódio, seja ele emanado de uma pessoa cristã ou de uma pessoa agnóstica ou ateia. Todo discurso de ódio deve ser criminalizado e reprimido. Então aqui também temos algumas diferenças.


O que nos une é, por exemplo, essa questão da exploração sexual infanto-juvenil. Eu sou radicalmente contra a exploração sexual de crianças e adolescentes, até porque sou pai de três adolescentes. Eu, como pai, sou totalmente contra o que chamam de pedofilia – e que eu chamo de exploração sexual infanto-juvenil. Ela também [é contra]. Então, aqui é um ponto de unidade. Também sou favorável que nós tenhamos hoje estrito apoio ao respeito às pessoas que acreditam em Deus, mas defendo que o Estado deve ser laico. Então nós temos divergências.


O que nos unificou nesse período desses dois anos é a questão da empregabilidade. Houve avanços, nesse sentido, tem alguns projetos, algumas iniciativas da questão da empregabilidade para as pessoas trans, que várias organizações conseguiram através de emendas de parlamentares, inclusive parlamentares de esquerda, para a empregabilidade. Mas chega por aí.


Nós temos a capacidade de diálogo, nós sempre estivemos em polos opostos. Ela fala: “Deus acima de todos”. E eu falo: “a Constituição acima de todos”. Embora tenha para mim uma postura muito tranquila com relação a isso. Então, há pontos de divergência, muito mais que de convergência. A nossa conversa sempre foi muito respeitosa. E eu respeito as pessoas diferentes. Tem uma expressão que eu gosto, que eu aprendi com meu esposo, inglês, que diz: "Para se fazer o mundo, precisam-se de todos os tipos de pessoas”.


Não gosto da política de “olho por olho, dente por dente”. Senão vamos ficar todo mundo banguelos e cegos. A gente tem que dialogar, ver o que dá para fazer juntos. Inclusive há setores do movimento LGBT que são muito radicais e dizem que não podemos sentar com pessoas que pensam diferente.


DIADORIM – O que o senhor achou da possibilidade de Eduardo Leite (PSDB-RS) ser candidato a Presidente? Ele seria o primeiro presidenciável assumidamente gay.

REIS – Eu sou "Estado do Iguaçu", que é uma parte do Paraná. Eu fui criado dentro do Centros de Tradição Gaúcha, eu gosto muito da cultura gaúcha. É uma cultura que realmente tem muito patriarcado, muito machismo, e eu achei a coragem que o desprendimento dele de assumir [a homossexualidade] de uma coragem imensa. Embora eu possa divergir dele, aqui e acolá. Eu defendo muito o Estado forte, nós precisamos ter um Estado forte, nós precisamos ter economia forte.


Seria muito bacana ter um um presidente assumidamente gay. Mas só que quando você vai defender políticas, você não tem que só estar pensando na orientação sexual. Você tem que pensar num todo. Da mesma forma que um presidente católico só vai defender os católicos? Ele tem que defender todas as religiões, os ateus e os agnósticos, enfim.