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O que é o anarquismo queer e as alianças emergentes?

Para pesquisador, anarquismo queer é necessariamente ação direta e luta contra toda autoridade baseada num modelo branco, heterossexual e cisnormativo


Foto: Unsplash

01 dez. 2021 | Bruno Amorim


Eu gosto de pensar tanto o anarquismo quanto o queer (e consequentemente o anarquismo queer) a partir de uma definição que está na enciclopédia francesa anarquista, organizada por Sébastien Faure: todo aquele que luta contra autoridade e se levanta diante dela é um anarquista.


Essa definição foi a saída, pensada pelo autor, para acabar com certas disputas internas entre várias concepções de anarquismo. Ela também abriu um pouco a possibilidade de compreendermos, atualmente, em várias instâncias das nossas vidas, como agimos anarquicamente no dia a dia e nem nos damos conta disso.


Posiciono o anarquismo queer numa certa fronteira. A ação queer antipolítica só existe dentro das relações de poder, que se dão entre as práticas de poder e as práticas de resistência. É nessa fronteira agônica que a cultura queer libertária e as práticas anarquistas vão encontrar reivindicações comuns.


Essas reivindicações não são uma doutrina – ou sistema de princípio ou um regime de verdade, como aludiria Foucault –, mas uma luta diária contra esses processos de sujeição, articulados em torno da raça, sexualidade e gênero.


Antipolítica


Tomo emprestado o uso do termo “antipolítica”, mobilizado pelo professor e pesquisador Acácio Augusto, para que possamos entender a ação antipolítica como uma postura desmistificadora diante da sujeição. Ou seja, uma recusa radical às formas de mediação e negociação com o poder, que torna possível superar as múltiplas formas de dominação, engendradas por velhas e novas tecnologias de governo.


Ações antipolíticas queer


Outro elemento que quero apontar aqui, que também é bem presente na cultura libertária (ou deveria ser, pelo menos), é que, de certa forma, o ativismo queer é agressivo. Mas não confundam agressividade com o uso generalizado da violência.


Esse elemento de agressividade relaciona-se com outro elemento importantíssimo: a revolta.


A revolta é muito mais importante, como diria o próprio Acácio, do que propriamente uma ideia de revolução, ainda sujeita, em certa medida, a uma teleologia (seja holística ou laica), que promete uma redenção futura.


A revolta é o que acontece no aqui e no agora. É, literalmente, uma forma de ação direta que atinge da micro à macropolítica. É uma prática cotidiana, sempre colocada em devir.


Partindo das formulações do filósofo Gilles Deleuze, gosto de localizar o ativismo queer entre o devir criança e um devir animal. Isso pressupõe uma agressividade própria dos animais, que foi descartada pelo pensamento moderno como algo a ser eliminado dentro da nossa constituição enquanto sujeitos. Desde o iluminismo, a ideia é que você pense com a cabeça, não com o corpo, forcluindo o desejo/prazer para um dispositivo de racionalidade branco, moderno e colonial.


E a criança... Basta olhar uma para se entender o que é o devir criança — muito melhor do que eu poderia explicar em palavras. Uma criança "luta" por objetos, não por ideias... E aqui a antipolítica está extremamente implicada, porque não tem negociação. É ação direta: ou é ou não é.


Tecnologias autônomas, espaço de invenção


Pensar espaços outros é, pra mim, o que Foucault escreve em uma nota de rodapé em A Coragem da Verdade (último curso que ele deu em vida): “Pouco importa a história da doutrina, o importante é estabelecer uma história das artes de existência.” A gente pode pensar a heterotopia, como aludia Foucault, como um investimento radical para fugir da "governamentalidade" colonial.


Para encerrar, me valho de um trecho de Jota Mombaça retirado de seu livro “Não Vão Nos Matar Agora” (2021):


A luta portanto é sempre uma luta pela abolição do ponto de vista do colonizador e, consequentemente, é uma luta pelo fim do mundo – o fim de um mundo. Fim do mundo como o conhecemos. Como nos foi dado conhecer – mundo devastado pela destruição criativa do capitalismo, ordenado pela supremacia branca, normalizado pela cisgeneridade como ideal regulatório, reproduzido pela heteronormatividade, governado pelo ideal machista de silenciamento das mulheres e do feminino e atualizado pela colonialidade do poder; mundo da razão controladora, da distribuição desigual da violência, do genocídio sistemático de populações racializadas, empobrecidas, indígenas, trans, e de outras tantas. Não há negociação ou reforma possível, portanto.


 

Bruno Amorim

Anarquista e queer, graduando em serviço social pela faculdade paulista de serviço social (FAPSS). Pesquisa intersecções entre anarquismo, teoria queer e a violência fundacional moderno-colonial-capitalista.

 

* Os textos publicados nesta seção não necessariamente refletem a opinião da Diadorim.


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