• ENTREVISTA

'Temos que incomodar': 1ª deputada trans de PE, Robeyoncé Lima vai se candidatar à Câmara em 2022

Parlamentar do Psol diz que em cenário de conservadorismo e discurso de ódio, é necessário ampliar vozes de pessoas trans; ela será candidata a deputada federal


Em 2018, Robeyoncé Lima foi eleita co-deputada de Pernambuco no mandato coletivo Juntas (Psol). Foto: Alepe

16 mar. 2022 | Camilla Figueiredo


Com a aproximação das eleições nacionais de 2022, os lançamentos das pré-candidaturas movimentam a política brasileira. Na última sexta-feira (11), a codeputada estadual pernambucana Robeyoncé Lima (Psol) anunciou que vai entrar na disputa a uma vaga na Câmara Federal. Se eleita, entrará para a história novamente como uma das primeiras a ocupar esse espaço. Em 2018, sendo a única trans entre cinco mulheres, ela compôs a primeira mandata coletiva a se eleger à Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), a Juntas.


O pleito eleitoral de 2018, ao mesmo tempo em que tornou Jair Bolsonaro presidente do país, também abriu as portas da política partidária para LGBTIs. Naquele ano, quando aumentou de 386% em comparação com as eleições de 2014 nas candidaturas dissidentes de sexualidade e/ou gênero, segundo a Aliança Nacional LGBTI+, foram eleitos cinco deputadas estaduais (três delas trans, uma bissexual e uma lésbica), um deputado estadual, um deputado federal e um senador gays.


Em 2020, o número de representantes LGBTI+ vencedores foi 78. Entre eles, 30 são pessoas trans, um crescimento de 275% em relação às eleições municipais de 2016, quando oito se elegeram.


Duda Salabert (PDT), Linda Brasil (Psol), Lorim de Valéria (PDT), Titia Chiba (PSB), Dandara (MDB) e Tieta Melo (MDB) não foram apenas as primeiras mulheres trans eleitas em Belo Horizonte (MG), Aracaju (SE), Pompeu (MG), Pontal (SP), Patrocínio Paulista (SP) e São Joaquim da Barra (SP), mas também as candidatas com maior número de votos nas respectivas câmaras municipais.


Na capital paulista, Érika Hilton (Psol), que havia dividido o pioneirismo de ser a primeira mulher trans eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) com Erica Malunguinho (Psol) em 2018, deixou a Bancada Ativista e alcançou a marca da mulher mais votada na Câmara de Vereadores. Em busca de mais espaço e luta, Hilton anunciou, no último sábado (12), que também é pré-candidata a deputada federal este ano.


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Para entender melhor esse contexto e as perspectivas das mulheres trans e travestis para o próximo pleito nacional, a Diadorim conversou com Robeyoncé Lima.


AGÊNCIA DIADORIM – No seu Instagram, você mencionou que a decisão de se candidatar a "deputrava" federal foi tomada em diálogo com a Juntas, mas desde quando isso está sendo pensado? Quais foram as motivações?

ROBEYONCÉ LIMA – É difícil, né? Disputar esses espaços eleitorais. É difícil se colocar enquanto pré-candidata a deputada federal, do mesmo jeito que também foi difícil a gente lançar a candidatura coletiva em 2018, mas é uma decisão política que a gente toma num cenário de extrema necessidade. Uma decisão política que eu tomei junto dos diversos movimentos sociais com os quais eu dialoguei, com as outras codeputadas das juntas na Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco e diante da urgência dessa necessidade de ampliação das nossas vozes. Tanto na esfera estadual como na federal. Eu decidi que a melhor forma de fazer isso seria lançar essa candidatura a (deputada)federal. Claro, ressaltando também a importância da reeleição das Juntas para que possa dar continuidade ao projeto que a gente fez durante esses quatro anos em Pernambuco, mas que também é preciso ampliar numa nova esfera pra que a gente possa fazer essa interlocução também nacionalmente. É uma decisão que não é somente minha, é uma decisão coletiva que busca necessariamente essa ampliação, sempre destacando também a importância de que outras mulheres ocupem esse espaço, como, por exemplo, a companheira Carol Vergolino (Psol-PE), que também está saindo a candidata federal, pra que a gente possa ter mais vozes nesse cenário político.


DIADORIM – Sabendo que o congresso é um ambiente machista, lgbtfóbico e conservador, como você espera enfrentar as violências que provavelmente recairão na primeira deputada federal travesti (caso eleita)? Você está preparada?

ROBEYONCÉ – A partir do momento que a gente nasce, cresce no país que mais mata pessoas trans no mundo, que a gente consegue inclusive superar a expectativa de vida de 35 anos das pessoas trans no Brasil, eu acho que a gente está preparada pra tudo. Inclusive pra uma disputa eleitoral, né? É claro que vão vir violências, que a gente vai enfrentar discurso de ódio, que a gente vai enfrentar racismo, transfobia, LGBTQIA+fobia, mas a gente desde sempre convive com isso na verdade. Desde sempre a gente luta contra isso. Eu acho que quando se revelam condutas ou discursos de ódio contra os nossos corpos dentro da política, isso reflete também um incômodo que muitas pessoas têm de a gente estar nesses espaços institucionais, de tomada de decisão, porque não nos queriam dar oportunidade.


DIADORIM – Você ouve falar de outras mulheres trans e travestis que estão pensando em se candidatar também?

ROBEYONCÉ – Há uma movimentação no contexto nacional, inclusive... Tenho dialogado com pessoas do movimento negro, do movimento de mulheres, do movimento LGBTQIA+ e entendo que vão ser lançadas outras candidaturas trans, de mulheres, de mulheres negras ao Congresso Nacional. Eu acho que, nessa onda de avanço do conservadorismo e na prioridade número um de derrotar o discurso de ódio, eu acho que a gente precisa ingressar em bonde nessa disputa por uma vaga, ou por várias vagas, no Congresso Nacional. Eu acho que quando a gente se coloca nesse espaço, quando a gente pleiteia esse local de fala, a gente está querendo uma modificação radical no cenário político, em que a prioridade número um é derrubar o conservadorismo.

DIADORIM – Quais serão as suas principais pautas, caso seja eleita?

ROBEYONCÉ – As pautas que a gente pretende levar para o Congresso Nacional são pautas que já estamos trabalhando dentro do nosso mandato estadual: enfrentamento ao racismo, a pauta do feminismo, LGBTQIA+, do desencarceramento, a pauta da acessibilidade. E muitas outras pautas que para nós são de extrema relevância, intrínsecas inclusive à nossa própria sobrevivência, né? Acho que a gente vive um cenário hoje, de Congresso Nacional em Brasília, que é um Congresso Nacional que precisa ser incomodado. Ou precisa ser questionada a ausência dos debates políticos relacionados a essas temáticas. Porque são temáticas inegociáveis pra a gente, intrínsecas inclusive à nossa própria sobrevivência, e que necessariamente precisam ser dialogadas e questionadas, debatidas dentro do Congresso Nacional pra que a gente tenha uma sociedade cada vez mais justa e igualitária.


Porque todas essas pautas que foram citadas dizem respeito à minha vida, à nossa vida, né? E quando a gente tiver uma sociedade mais justa para as mulheres, para as mulheres negras, em especial para as mulheres trans e travestis negras, a gente terá uma sociedade melhor pra todo mundo.


DIADORIM – Os resultados eleitorais mais recentes abriram as portas para a populaçao LGBT na política partidária brasileira? Que análise você faz desse momento que vivemos?

ROBEYONCÉ – A gente quando vê, quando observa os resultados eleitorais das eleições municipais de 2020, a gente percebe que teve algumas candidaturas trans, muitas na verdade, quase 30 candidaturas trans, que se destacaram nos respetivos municípios aos quais se candidataram. Inclusive muitas delas foram as mais votadas, né? E aí eu posso citar Duda Salabert (Psol-MG), a mulher mais votada da história de Belo Horizonte. Posso citar a Linda Brasil (Psol-SE), em Aracaju. Eu posso citar Érika Hilton (Psol-SP), que foi a mulher mais votada na Câmara Municipal de São Paulo em 2020, posso falar também de Benny Briolly (Psol-RJ). Mas ao mesmo tempo que eu falo dessas pessoas, necessariamente eu preciso falar do contexto de violência que elas estão vivendo, do contexto de ameaça e vulnerabilidade em que a política nos coloca. E como a gente, ao mesmo tempo que ocupa esse espaço, pode estar pleiteando um direito de poder viver pra trabalhar. A gente quer trabalhar e a gente quer trabalhar com segurança. Infelizmente, a gente vive uma realidade de violência política muito grande. Semana que vem vamos completar quatro anos do assassinato de uma parlamentar que era também LGBTQIA+, Marielle Franco, e ainda hoje a gente não tem respostas ou ações específicas ou exclusivas para a defesa e a proteção dessas parlamentares.


DIADORIM – Um ano atrás, você escreveu um artigo de opinião para a Diadorim levantando o questionamento a respeito de qual(is) legenda(s) estaria(m) disposta(s) a dar mais protagonismo para as mulheres. Essa pergunta continua no ar, sem resposta? Algo mudou de lá pra cá?

ROBEYONCÉ – Sim, essa pergunta ainda continua no ar. Ainda é importante fazer esse questionamento às legendas partidárias e aos partidos políticos. Primeiro porque não existe a possibilidade de candidatura autônoma e segundo porque necessariamente os partidos devem cumprir a cota, mas não somente isso, né? (Precisam) Realmente colocar as candidaturas de mulheres como prioridade, para além apenas da cota cumprida meramente nos 30%, como estabelece a legislação. Mas ao mesmo tempo, também é importante lembrar que a representatividade de fato muitas vezes não acontece. A gente tem, infelizmente, uma realidade em que existem mulheres na política que não reverberam ou não defendem a pauta do feminismo. A gente tem alguns exemplos, inclusive na própria Câmara Federal. E que é importante que sejam votadas mulheres, que se priorize a candidatura de mulheres, mas que também se coloquem nos espaços institucionais ou de tomada de decisão mulheres que realmente defendam a pauta feminista, mulheres que realmente defendam as demandas do movimento feminista brasileiro. Lembrando ainda também que há uma ausência ou uma dificuldade de inserção das mulheres ou de priorização de priorizar a candidatura prioritária de mulheres ao cargo do executivo. No Governo do Estado de Pernambuco, por exemplo, nunca tivemos uma governadora mulher. Muitas prefeituras, muitas cidades e estados, nem sequer tiveram prefeitas ou foram governados por mulheres e o debate de ocupar o executivo é um debate que também precisa ser levado em pauta e em consideração na hora de priorizar candidatura de mulheres na política.