• OPINIÃO

Carta aberta a Nise Yamaguchi: 'Esses homens brancos não gostam de nós, pessoas amarelas'

Pesquisadora escreve texto para a médica Nise Yamaguchi, bolsonarista que defende o uso de cloroquina no tratamento de Covid-19


Médica Nise Yamaguchi, em depoimento à CPI da Covid. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Maria Morita | 3 jun. 2021


Carta aberta para Nise Yamaguchi


Cara Yamaguchi-san, não sei se a senhora vai ler minha carta. Mas busquei te endereçar via plataforma de jornalismo independente, em resistência, que amplifica vozes de pessoas pertencentes a grupos que chamam de minorias. Assim, quem sabe, esta carta te alcance. Tudo bem que a senhora nem chegue a saber que te escrevo. Porque também escrevo para pessoas como nós: amarelas e, principalmente como a senhora, pessoas amarelas apoiadoras de Jair Bolsonaro e do governo miliciano-financeirista-milico-ruralista-genocida-fundamentalista. De certa forma, escrevo também para pessoas brancas como Bolsonaro, mas da oposição, como eu.


Sinto muito. Sinto tanto que a senhora (e outras pessoas amarelas como nós) seja bolsonarista, negue a eficácia da vacinação ampla e irrestrita, o principal meio de combater a transmissão da Covid-19. E pior: acredite e indique tratamentos que além de não serem eficazes, são extremamente perigosos.


Por suas falas, Yamaguchi-san, recebi algumas mensagens de pessoas conhecidas, perguntando qual minha opinião ao saber que uma mulher "japa" como eu tem esses posicionamentos, diferente de mim, que procuro ter consciência de meus pontos de partida como classe trabalhadora, mulher amarela, pessoa implicada historicamente num país escravocrata. Um país que negocia nossa racialização.


Yamaguchi-san, por favor, escute: esses homens brancos que a senhora apoia não gostam de nós, pessoas amarelas! E um número incontável de homens brancos (também muitas mulheres) do campo de oposição ao governo, com o qual me identifico, publicaram em suas redes sociais comparações da senhora com a bruxa Kilza, do "Jaspion", ou com a Rita Repulsa, dos "Power Rangers". Pessoas que como eu não concordam com seus posicionamentos políticos perigosos, disseram que a senhora desmente o suposto fato de que japoneses e seus descendentes são inteligentes; também compararam seu interrogatório na CPI da Covid-19 (realizado pelo senador Otto Alencar [PSD]) com conteúdos pornográficos protagonizados por mulheres asiáticas.



A senhora sabia que as mulheres asiáticas mortas alvejadas pelo atirador de Atlanta são vítimas de um algoz que consumia esse tipo de conteúdo pornográfico fetichizante de corpos como os nossos? Pessoas que reprovam seus posicionamentos, Yamaguchi-san, assim como eu reprovo, chegaram a falar do tamanho da sua vagina!


Sinto muito e sinto tanto! Sinto muito, Yamaguchi-san, que estejamos em lados políticos tão opostos, quando nossas antepassadas foram consideradas pessoas de uma raça potencialmente cruel pelos brancos que Bolsonaro admira e imita! E quando Bolsonaro e pessoas que pensam como ele falam de nós com falsa admiração, o fazem para nos colocar em uma hierarquização racial que aprofunda e busca justificar o racismo contra as pessoas negras do nosso país. Eles querem dar a entender que as pessoas amarelas são modelo para o comportamento dócil e obediente no trabalho e relações pessoais, mesmo sabendo que nossas antepassadas não foram escravizadas. Para eles somos apenas potência "desafricanizadora" da sociedade brasileira. Mas na medida em que não servimos a esses interesses de aprofundamento do racismo estrutural que atravessa nossa história e nossa sociedade, passamos a ser associadas ao contágio do vírus por nosso fenótipo, voltamos a ser associadas a uma suposta crueldade própria de pessoas asiáticas. Pessoas estranhas na rua me chamaram de "porca chinesa" e me associaram diretamente como pessoa transmissora em potencial do vírus que a classe política que a senhora apoia chama de "vírus chinês".


Tento escutar o que a nossa ancestralidade nos narra e ela grita para rompermos com a convocação das pessoas amarelas para a aliança política com a classe proprietária e branca. Nossas antepassadas, Yamaguchi-san, foram expulsas do Japão para substituir o trabalho escravizado nas fazendas de produção de café e algodão do Brasil. E sabe por quê? Porque os proprietários de terras do estado de São Paulo, principalmente, não queriam remunerar as pessoas negras ao mesmo tempo que buscaram alternativas de explorar pessoas racializadas amarelas e lucrar sobre o trabalho de quem consideravam "quase escravizáveis". Também porque, no final do século 19 e primeiras décadas do século 20, as nações ocidentais como os Estados Unidos pretendiam que o Japão das nossas antepassadas fosse um modelo econômico asiático aliado aos seus interesses. Projeto que o império de Hirohito ajudou a consolidar, expulsando nossa gente para países do continente americano. O império não incluiu nossas antepassadas na construção da identidade nacional do Japão. Os brancos que lucraram com o trabalho da nossa gente exploraram nossas avós e mães com a justificativa de serem pertencentes de uma raça inferior e, hoje, a classe política a que a senhora é aliada, não só continua a acreditar que somos inferiores como negocia nosso grupo racializado para inferiorizar outros grupos (de pessoas negras e indígenas).


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Mas será, Yamaguchi-san, que esses homens brancos da direita mais parva, a consideram aliada de verdade? Ou será que apenas usam sua imagem para justificarem seus crimes? A senhora já se perguntou se eles realmente estão do seu lado? Se a senhora já se perguntou ou não, não me importa. A senhora não está do meu lado. A senhora está do lado de quem mata a nossa população sem oxigênio, sem vacina, sem emprego, com cloroquina, com complicações renais de super dosagem de vermífugos, com bala de fuzil, com fome, com racismo, com machismo, com LGBTIfobia, com xenofobia, com violência institucional. A senhora está do lado dos genocidas e reprovo com muita dor a sua escolha!


Sabe, Dra. Yamaguchi? Não pergunto para minhas amizades brancas o que elas têm a dizer sobre o comportamento reprovável de pessoas brancas do fundamentalismo miliciano como sou perguntada sobre meu posicionamento diante da sua aliança de morte. Mas agora, depois de tudo o que disseram sobre a senhora, não por seus posicionamentos políticos, mas por sua condição de existência como mulher amarela, a bagunça com a qual nós (pessoas amarelas com perspectiva histórica de nosso ponto de partida) temos que lidar é enorme! Essas falas atingem lembranças de microviolências racistas que passamos por toda uma vida sendo apontadas nas nossas diferenças com pessoas brancas. Todos os homens brancos que nos flertaram esperando nossa passividade, nossa docilidade e nossas "vaginas apertadinhas" aparecem para nos assombrar. E eu não queria que nós e nem a senhora passássemos por isso.


Espero que suas ancestrais soprem no seu ouvido a narrativa da nossa racialização e indiquem caminhos para a ruptura de sua aliança com o governo miliciano e a branquitude nele engendrada. Por aqui, vou tentar fazer com que a branquitude engendrada no campo político de oposição entenda que muitos dos comentários que fizeram contra a senhora, não são críticas de oposição e, sim, ataques xenofóbicos e racistas contra um grupo racializado que além de lutar contra ideias e práticas que a senhora defende, tem que lidar com o desserviço da branquitude na oposição que nos é tão cara.


Com tristeza,


Maria Morita

Descendente de fornitura de cidade pequena e da diáspora Ainu, no estado de São Paulo, oscila na filosofia acadêmica perseguindo aspectos das montagens corpóreas da população asiático-brasileira nas suas diferenciações étnicas. Pesquisadora de possibilidades conceituais nas práticas, vivências e narrativas do povo Ainu em diáspora. Ensaia retornos cognitivos da diáspora do povo não-japonês na tentativa de não entregá-los para os caretas.

* Os textos publicados nesta seção não necessariamente refletem a opinião da Diadorim.


Esse é um espaço de reflexão sobre diversidade sexual e identidades de gênero, com ênfase na defesa dos direitos da população LGBTI+. Você também pode colaborar. Quer escrever para a Diadorim? Fale com a gente, pelo e-mail redacao@adiadorim.org.