• OPINIÃO

8 de Março também deve ser um chamado à luta contra a transfobia 'feminista'

Para grupo Radpill, feminismo radical é transfóbico, pois não reconhece a heterogeneidade de gênero e as múltiplas violências que afetam todas as mulheres



Radpill | 16 mar. 2021


De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no primeiro semestre de 2020, 648 casos de feminicídio ocorreram no país. E, segundo a pesquisa realizada anualmente pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 125 mulheres trans e travestis morreram no mesmo período.


Mas no 8 de Março, quantas vezes estas mulheres foram lembradas?


Do final dos anos 1970 em diante, movimentos de mulheres negras e lésbicas no Brasil se levantaram para lembrar o feminismo hegemônico de que a luta pelos direitos das mulheres precisava considerar as dores de todas, e não apenas das brancas heterossexuais. Para um pequeno, mas violento grupo feminista, tais reivindicações parecem fazer sentido. Porém quando mulheres trans e travestis reivindicam seu espaço na luta, recebem ataques sem sentido. Ou talvez, com um único sentido: transfobia.


Sabemos que desafiar o cispatriarcado sempre gerou violência, e que a transfobia está enraizada em nossa cultura cristã. Portanto, é de se imaginar que muitas feministas ainda estejam descobrindo e entendendo a causa trans. Mas não é disso que estamos falando. Sim, há muitas mulheres cis que estão dispostas a ouvir e aprender a como apoiar suas companheiras. Mas o feminismo radical (ou radfem, ou até mesmo rad) escolhe de propósito atacar mulheres trans, como se elas fossem “o inimigo”.


Importante não confundir “radical” com “extremista”. Quando se fala de movimentos sociais, pessoas com posturas mais rígidas e ideias mais duras são comumente chamadas de “radicais” ou “extremistas”, mas o nome dado ao feminismo radical foi escolhido pelo próprio movimento, pois segundo elas, a vertente ataca a “raiz” do problema.


O início


Tudo começou quando, nos Estados Unidos, no início dos anos 1970, um grupo feminista radical, que pregava a comunhão entre mulheres e seu afastamento de espaços masculinos, sofreu uma cisão. Até então, elas eram trans-inclusivas, ou seja, mulheres trans eram tão bem-vindas quanto as cis. Porém, em 1973, ocorreu o primeiro caso de transfobia dentro desses grupos: Bev Von Dhore (BevJo) contra Beth Elliott, que até então eram amigas. Meses depois, também nos EUA, outro caso ocorreu, agora de Janice Raymond contra Sandy Stone. Com isso, pouco a pouco, as transfóbicas foram ganhando cada vez mais força dentro do movimento, até se tornarem hegemônicas na década seguinte. Hoje, radfem é sinônimo de transfobia. Essa história é muito bem contada por Bianca Rêgo Monteiro nesse texto.


O feminismo radical tem um ponto “forte” importante: ele fala muito sobre lesbofobia (contra mulheres cis), tema nem sempre debatido em espaços feministas. Por isso, muitas jovens mulheres se sentem acolhidas ali, em uma irmandade “sem homens”. Outras se aproximam do movimento por conta do discurso pseudocientífico em que elas se dizem as únicas que levam a causa feminista realmente a sério.

Determinismo biológico


Ainda sobre o discurso de serem as verdadeiras feministas, algumas rads se chamam de “materialistas”, e não radicais, pois acreditam que o determinismo biológico em que baseiam suas compreensões sobre gênero pode ser chamado de “materialismo”. Materialismo é uma vertente filosófica que surgiu no século 18 na Europa. Ela deu origem ao materialismo histórico (também chamado de marxismo). Curiosamente, as feministas marxistas no Brasil repudiam a transfobia do radfem e já explicaram que elas não são materialistas.


Com base em uma leitura desatualizada de “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, o feminismo radical entende que o gênero de homens e mulheres (pessoas intersexo e não-binárias são inexistentes para a “teoria”) é determinado pelo seu órgão reprodutor, de forma que seja impossível ser designado de um gênero ao nascer, e se identificar com outro.


Tal determinismo biológico para elas está ligado à “socialização”: quem nasce com vulva, por exemplo, será socializado uma vez como mulher e isso definirá a pessoa como mulher para sempre. Elas não entendem que o processo de socialização dura por toda a vida, e se altera conforme nosso status na sociedade muda.


Os riscos


Com alguns bons argumentos apropriados de feministas sérias (como Heleieth Saffioti e Angela Davis, autoras comumente citadas pelo rad), muitas radicais se estabeleceram silenciosamente entre os movimentos sociais. Para pessoas cis, é até difícil identificar quando um discurso está tendendo para o radfem, já que em um primeiro momento pode estar apenas apontando como mulheres cis sofrem – e não há problema nisso. O problema é que discursos assim costumam desembocar em uma definição de mulher = útero, e sutilmente dizer que só tendo um útero se é mulher.


Mas e quando mulheres trans ocuparem espaços nesses movimentos sociais, será que estarão seguras, já que ali também haverá “feministas” que não as enxergam e muito menos as respeitam como mulheres? Esse é um risco real.


Um caso notável é o de uma advogada de esquerda do Rio de Janeiro, que de primeira parece preocupada com as causas sociais e em especial com o feminismo. Contudo, é extremamente transfóbica e já atacou muitas mulheres trans que ousam participar das lutas sociais como ela.

Saídas


Por isso, é necessário sempre nos posicionarmos como aliados da causa trans, e deixarmos claro que a identidade de gênero de mulheres trans e travestis não é passível de discussão. Assim, nossos espaços de luta não terão espaço para transfobia, as radfem terão que questionar suas visões antes de se aliarem, e o mais importante, tais espaços se tornarão transinclusivos.


Muitas pessoas não sabem do que se trata o feminismo radical, nem como ele age contra a causa trans. Isso, em partes, porque é um grupo pequeno, especialmente no Brasil. Mas seu tamanho não o torna irrelevante, afinal seus ataques são constantes a ativistas trans. Estarmos conscientes e alertas pode ajudar a barrar tais ataques e a impedir que a filosofia rad se propague.


Com isso, neste Mês de Março, fazemos um chamado ao combate à transfobia em espaços feministas. O feminismo deve evoluir rumo a um movimento cada vez mais transinclusivo, da mesma forma que temos aprendido a escutar mulheres negras, lésbicas, dentre tantas outras, para que conquistemos a liberação de todas.


“Usando um exemplo da história dos Estados Unidos, mulheres negras não eram reconhecidas como mulheres de verdade porque elas eram muito diretas, muito bravas, não submissas o suficiente. Assim, no culto à verdadeira feminilidade do século XIX, a verdadeira feminidade era branca, a verdadeira feminilidade era classe média etc. Não reconhecer a heterogeneidade de gênero, cisgênero, transgênero, gênero fluido, não-conformidade de gênero etc., nos desarma, nos impede de contestar violências que em última análise afetam todas nós”, diz Angela Davis, em “Lección Inaugural UCR 2018: Feminismo y Transformación Social en la Era de Trump”.


Radpill

Grupo de pessoas que já tiveram contato com o rad e buscam alertar sobre os problemas da “vertente”. O nome faz referência à “filosofia” Blackpill, visão fatalista de que o sucesso dos homens é determinado ao nascer. Twitter: @radfempill

* Os textos publicados nesta seção não necessariamente refletem a opinião da Diadorim.


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