• OPINIÃO

‘Para todas as bichas intrometidas’, a experiência de uma afeminada entre geeks

Para criadora do Perifacon, estratégia de ocupar espaços historicamente opressores é difícil e doloroso, mas às vezes é a única maneira de gerar mudanças


A produtora, gamer e designer Igor Nogayra. Foto: Instagram/Reprodução/Tomaz Alencar (Arte)

Igor Nogayra | 15 fev. 2021


As noites de outono são a melhor época do ano para ver a constelação Cruzeiro do Sul no céu da cidade de São Paulo. Composta por cinco estrelas, quatro delas formam o perfeito desenho de uma cruz e a quinta pode ser considerada intrometida, que não se integra, atrapalha e causa estranhamento na tão bonita constelação.


Nascida e criada nas favelas de São Paulo (Heliópolis, Jaçanã, Jardim Brasil), eu, Igor Nogayra, 26 anos, sou produtora, gamer, designer e torcedora do time de futebol de várzea Corote e Molotov. Uma bicha afeminada não binária vivendo no “não lugar” das definições de gênero e que desde pequena sempre gostou de se intrometer e causar espanto por onde ia.


Em meio ao caos da pandemia, me vi refletindo sobre os espaços em que me faço presente, seja trabalhando, me divertindo, militando etc. Percebo que, em todos eles, eu me intrometi e fiz desses espaços meus. Assim como a “intrometida”, eu nunca consegui admitir que eu não fosse bem-vinda onde eu queria estar. Sou uma das criadoras da Perifacon, ao lado das minhas parceiras Luize Tavares, Andreza Delgado e Gabrielly Oliveira, um evento de cultura nerd e geek nas favelas do Brasil. Trabalhar com esse segmento tão elitizado, cisgênero, branco e heteronormativo é uma das batalhas que travei e conquistei sendo intrometida.


A Perifacon me tornou visível em um espaço que eu sempre ocupei. Durante a minha infância, gostava muito de ir à lan house jogar Counter-Strike, ambiente completamente dominado por homens heterossexuais e cisgêneros. Permanecia sempre calada, mesmo em um jogo no qual a comunicação é essencial, simplesmente para não transformar essa busca de diversão em possibilidade de sofrer violência. Atualmente, 2021, esse mesmo cenário se mantém, impedindo pessoas que estão fora dos padrões hegemônicos de se divertirem e de crescerem profissionalmente no mundo dos e-sports.



De acordo com o segundo Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais, realizado pelo extinto Ministério da Cultura em 2018, só 20,7% dos sócios e funcionários de estúdios de games são mulheres cisgêneros, apenas 10% são negros, 0,9% é indígena e 0,4% é trans. Outra pesquisa que demonstra a crueldade desse cenário foi feita pela Anti-Defamation League (ADL), organização não governamental norte-americana, que aponta que 74% dos jogadores dos games multiplayers já sofreram algum tipo de discriminação durante as partidas. Destes, 53% foram vítimas de violência com base em discriminação de raça, identidade de gênero ou orientação sexual.


Como vemos, o universo nerd e geek é, em geral, opressor. Poder criar uma ferramenta tão forte como a Perifacon, que vai na contramão dessas práticas, é se intrometer para poder gerar mudanças. E estamos conseguindo. Na primeira edição do evento, em 2019, trouxemos mesas de debate sobre “Mulheres no Mundo Nerd”, “Representatividade Negra nos Quadrinhos”, além de games com temáticas negras e indígenas. Agora em 2021 estamos promovendo um concurso de cosplay com recorte racial.


Além dos jogos eletrônicos, eu também me intrometi no futebol. Ousada, né? Com certeza. Hoje sou integrante do time Corote e Molotov, fundado pelos moradores do Ocupa Alcântara Machado, na região do Brás. Me fazer presente em todos jogos nos campos ou nas quadras das mais diversas periferias da cidade é sempre um exercício muito desafiador para mim. Lutar contra os olhares e falas de estranhamento e violência não é fácil, mas faz parte da guerra que eu travei contra o “cistema”. Eu insisto em botar meus pés em qualquer terra que seja e fazer dela a minha morada também. Ninguém, além de mim, vai dizer a que lugares eu pertenço ou não.


Uma amiga minha sempre estranhou o fato de eu estar presente nos jogos do Corote e Molotov, pelo fato de o futebol ser um espaço historicamente opressor; porém os ambientes criados e frequentados pela comunidade das periferias muitas vezes são mais acolhedores a orientações sexuais e identidades de gênero não normativas do que muitos espaços da esquerda intelectual.


Ser intrometida não é fácil, me custa muito, é doloroso e desafiador, mas abre muitos caminhos, é uma postura política que vou seguir construindo, cada vez com mais vontade de causar estranhamento, atrapalhar e invadir o Cruzeiro do Sul.


Igor Nogueira

Formada em Design pela Faculdades Metropolitanas Unidas, trampa com produção cultural e direção de arte. Faz parte do grupo de idealizadores do Perifacon e participa ativamente do time de futebol de várzea Corote e Molotov, formado por moradores de rua da Zona Leste de São Paulo. Em breve vai começar seu canal de streaming de jogos em várias plataformas.

* Os textos publicados nesta seção não necessariamente refletem a opinião da Diadorim.


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